07 abril, 2013

O que você não sabe.


Quando na oitava série, num período confuso que é a adolescência, eu estudava num colégio de freiras e tinha um melhor-amigo chamado Felipe. Mas essa não é a história toda.
Felipe era alto, louro, de olhos azuis e corpo atlético. Levava muitas menininhas para embaixo da escada que dava para a sala audiovisual. Jogava bem futebol, xadrez, videogame, qualquer coisa. Sabe aquelas pessoas que são boas em tudo? E eu era apenas uma versão virgem e distorcida do que mais ou menos sou hoje: sombrio, feio, melancólico, esquisito e me recordo de, na época, querer ser como Rimbaud. Eu ia com meu caderninho de anotações poéticas a todos os lugares da escola, do banheiro ao ginásio de educação física. Não demorou muito para todas as turmas da tarde e algumas da manhã espalharem a conclusão de eu era, como dizem, bicha.
Difícil saber por que Felipe e eu, mesmo tão diferentes, éramos amigos do peito. Um belo e um feio, um pop e um esquisitão. Suponho a razão seja porque ambos estávamos repetindo a série e o resto da turma parecia todos uns pirralhos idiotas; mas é difícil entender as afinidades entre duas pessoas, onde exatamente elas se engancham.
Um dia, sem mais nem menos, Felipe chegou pra mim e disse que era melhor nos afastarmos, de turma, de classe, de turno. A minha imagem estava pegando nele, e isso era uma coisa ruim. Todos estavam achando que ele não gostava de meninas, e que ele só pegava várias para calar a boca da galera. Até tentei contrapôr, que não importava o que os outros pensassem, mas não fui muito longe. Eu sabia por quem eu tinha ereções e isso me bastava. Era mais fácil arrumar uns amigos novos do que mudar a cabeça homofóbica de alguém.
Eu poderia dizer que sei como é ser gay, mas seria uma heresia hedionda. Eu não sei como eles se sentem, não tenho ideia. O descobrimento, a negação, a transformação, a aceitação, a admissão? Nem imagino. Sei como é achar um homem atraente e bonito (Todos os homens sabem como é, embora não confessem. David Beckham, hein?), mas não faço ideia de como é ter atração física pelo mesmo sexo. Nunca tive contato com a dor e aflição de um menino que não se sente assim tão viril quanto o pai, a escola, a turma da natação, os garotos da rua, tios, etc, esperam que ele seja. Eu não sei como é, você não sabe como é. Só eles sabem. Não deve ser fácil.
Mas mesmo assim a gente cochicha, aponta, ri, debate, milita, rejeita, fala, debocha, argumenta, conta piadas a respeito, opina sobre o casamento gay, a lei anti-homofobia, adia o beijo homossexual na novela. Por que todos os dias conversamos sobre coisas que não temos noção de como é? Porque precisamos da ilusão de que somos superiores, seja por “saber como é” e falsamente compreender, ou seja por negação, rejeição, preconceito.
A verdade é que sofremos um pavor irracional em relação a tudo que não nos diz respeito, não aceitamos que as coisas possam existir e funcionar sem nosso aval e entendimento, o que nos leva a outra ilusão necessária: a de que estamos no controle, de que o mundo pertence a nós e logo somos o centro dele, e tudo que sucede em volta é mera paisagem e figuração.
Existem as coisas que você sabe. Que não representam uma ínfima fração de todo o resto que você não sabe. Deus nos abandonou com as dúvidas e fugiu com todas as verdades absolutas.


Gabito Nunes.

02 abril, 2013


"(...) A dor doía menos assim, embora não fosse exatamente uma dor. Mais um peso, um calafrio. Uma memória, uma vergonha, uma culpa, um arrependimento em que não se pode dar jeito."

Caio Fernando Abreu 

30 março, 2013

Believe!




"A minha história ainda será uma das mais bonitas,
e não importa o deserto que passo agora. 
Um dia não terei mais sede..." 

Cáh Morandi

22 março, 2013

E foi tão corpo que foi puro espírito.


"E a coisa que realmente importa é a tal da química.
Vai achando que é fácil de encontrar, vai. É coisa de pele, de querer se devorar, é cheiro à primeira vista, combina.
É quando a cabeça esquece, mas o corpo lembra de tudo.
Isso tudo é bom sim, mas o melhor tesão do mundo, que vale mesmo e é de verdade: é gente que "marca". A vida, o coração e a alma.
Mas uma coisa é fato, o melhor jeito de fazer as pazes é com o corpo.
É quando o corpo faz: Tim- tim.
Como diria Clarice Lispector:
'E foi tão corpo que foi puro espírito'."

Autor desconhecido.

09 março, 2013

Desistir...


“Desistir… Eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério. É que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.”
— Cora Coralina

08 março, 2013

Milagre


"Milagre é quando tudo conspira contra, mas Deus vem de mansinho e com um sopro leve muda o rumo dos ventos. Milagre é quando o incerto nos abraça depois de nos atingir cruelmente com sua fúria. É quando respirar vira quase um suspiro de alivio e a vida devolve o sorriso como forma de retribuição por todo sofrimento. É o instante teimoso que resiste bravamente a um duro percurso e mantém-se em pé amparado pela força divina. É a decisão que escapa de nossas mãos, mas que antes de cair agarra-se com toda força a uma segunda chance. Milagre é o improvável gesto de carinho que impulsiona o ser humano a não deixar de acreditar."

Fernanda Gaona

06 março, 2013

Tão verdadeiro.




"É difícil amar pessoas reais, porque uma pessoa real não irá cumprir suas expectativas. Ela não está aqui para cumprir as expectativas de qualquer outra pessoa. Ela tem que viver sua própria vida. E sempre que ela se move para algum lugar em desacordo com você ou não está em sintonia com seus sentimentos ou com suas emoções, torna-se difícil.
É muito fácil pensar sobre o amor, é muito difícil amar. É muito fácil amar o mundo inteiro, a verdadeira dificuldade é amar um único ser humano. É muito fácil amar a Deus ou à humanidade, o verdadeiro problema surge quando você se encontra com uma pessoa real e a encara. Para encará-la é preciso passar por uma grande mudança e um grande desafio."

Osho

24 fevereiro, 2013

Atalhos...


Quanto tempo a gente perde na vida? Se somarmos todos os minutos jogados fora, perdemos anos inteiros. Depois de nascer, a gente demora pra falar, demora pra caminhar, aí mais tarde demora pra entender certas coisas, demora pra dar o braço a torcer. Viramos adolescentes teimosos e dramáticos. Levamos um século para aceitar o fim de uma relação, e outro século para abrir a guarda para um novo amor, e já adultos demoramos para dizer a alguém o que sentimos, demoramos para perdoar um amigo, demoramos para tomar uma decisão. Até que um dia a gente faz aniversário. 37 anos. Ou 41. Talvez 48. Uma idade qualquer que esteja no meio do trajeto. E a gente descobre que o tempo não pode continuar sendo desperdiçado. Fazendo uma analogia com o futebol, é como se a gente estivesse com o jogo empatado no segundo tempo e ainda se desse ao luxo de atrasar a bola pro goleiro ou fazer tabelas desnecessárias. Que esbanjamento. Não falta muito pro jogo acabar. É preciso encontrar logo o caminho do gol.
Sem muita frescura, sem muito desgaste, sem muito discurso. Tudo o que a gente quer, depois de uma certa idade, é ir direto ao assunto. Excetuando-se no sexo, onde a rapidez não é louvada, pra todo o resto é melhor atalhar. E isso a gente só alcança com alguma vivência e maturidade.
Pessoas experientes já não cozinham em fogo brando, não esperam sentados, não ficam dando voltas e voltas, não necessitam percorrer todos os estágios. Queimam etapas. Não desperdiçam mais nada.
Uma pessoa é sempre bruta com você? Não é obrigatório conviver com ela.
O cara está enrolando muito? Beije-o primeiro.
A resposta do emprego ainda não veio? Procure outro enquanto espera.
Paciência só para o que importa de verdade. Paciência para ver a tarde cair. Paciência para sorver um cálice de vinho. Paciência para a música e para os livros. Paciência para escutar um amigo. Paciência para aquilo que vale nossa dedicação.
Pra enrolação... atalho.


Martha Medeiros.