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18 maio, 2013

048


Os primeiros dias de transitoriedade foram tranquilos e eu nem dei muita bola. Guardava em mim uma arenosa convicção de que ela não conseguiria ir muito longe, sentiria na boca do estômago a falta que sou capaz de fazer e voltaria de pesarosa e com o peito reaberto, se dando conta de que eu não teria capacidade nem de pensar numa sacanagem daquelas. Nada, até agora. Pelo jeito, Baby Julie acha mesmo que faz meu tipo fazer essas incursões transvaginais na maior caradura, debaixo do nariz dela, quase que literalmente. E embora nem eu mesmo saiba direito do que sou capaz ou que tipo de gente eu sou, tenho certeza que não sou tão canalha quanto ela pensa. Ela deve estar agora com um punhado de amigas, num bar, se enchendo de álcool doce e dizendo que sou o desastre ambiental que matou todos os peixes do oceano. Que se dane.

Mas há pouco achei aquele velho shortinho de brim que ficou orfão na minha gaveta de cuecas para sair. E aí tudo veio à superfície respirar desesperadamente e reanimar as memórias que estavam quase sem oxigênio. Eu amava esse short de brim curto e com uma cascata de farrapinhos se derramando por suas coxas franzinas, e a jaqueta de couro preto por cima de tudo. Atiro a peça no chão e me sinto melhor, com a pouco duradoura impressão de que ela está aqui comigo, fazendo bagunça no banheiro ou escutando baladinhas de surfista no meu computador. É nesse momento que eu crio coragem.

Eu ligo. Ela não atende.
Eu ligo. Ela não atende.
Eu ligo. Ela não atende.
Eu ligo. Ela não atende.
Eu ligo. Ela não atende.
Eu ligo. Está fora de área.
Eu ligo. Está desligado.
Eu ligo. Está fora de área ou desligado.
Eu ligo. Deixo uma mensagem de voz.
Eu ligo. Ela atende.

Eu quase choro de gratidão do meu lado da linha. Ela gentilmente sugere que eu morra. Em seguida bate a ligação na minha cara. O aparelho se multiplica em destroços ao esbarrar na parede fria. Eu pranteio feito um palerma, lágrimas idiotas me escorrem sem autorização, eu choro pelo aparelho, pela parede, pela fome na África, pelos buracos na calçada, pela propaganda partidária na TV, pela minha mãe, por causa de uma garota, porque tem dias que eu me sinto mais sozinho que o usual, por tudo.

Ela me liga. Recomenda que eu pare de ligar, e o engraçado que eu já havia feito isso momentos atrás. São três horas sem agir como um garoto maluco, desses que guardam ex-namoradas em freezeres. Tento reverter e consigo que ela me ouça um pouco. Digo a verdade, que não lamento pelo motivo que nos separou, mas pelo rompimento em si. E então acho que Juliete fica curiosa com minha veemência em encontrá-la e explicar tudo, pois grunhe um “Ok”. Ótimo, ótimo. Convido Julie para vir até aqui, mas a garota acha melhor não, e aí sugere um local público como oferta final. Topo, topo qualquer coisa.

*
Chego ao pub e ela já está lá, com os ombros encolhidos e olhando fixamente para o rótulo da garrafa de vodka inerte em cima de mesa. Sento no outro extremo e logo um garçom se materializa na minha frente, o que considero a deixa pra pedir uma coca gélida e uma dose de Domecq, para que esse papo deslize com facilidade. Assim que o sujeito sai, junto as mãos e as esfrego um pouco, e aí olho pra ela preparando meu discurso pré-fabricado.

– Espera – Juliete larga na frente. – Olha, antes de você dizer qualquer coisa, deixa eu falar.

Meio que cortou minha onda, mas tudo bem.

– Ok. Pode falar.

Ela fala:

– Sabe, eu acho que a gente deveria acabar com tudo isso, logo de uma vez – desembucha a garota.
– Mas... Como... Por quê? – pergunto.

Vê como é a vida, esses dias eu falava em dispensar Juliete como se eu fosse o novo garanhão a estrelar o próximo 007 e agora estou gaguejando como uma pessoa paranoica, carente, culpada e louca.

– Eu conheci outra pessoa. – Curta e grossa.

É mentira dela. Ninguém conhece ninguém em quinze dias. Tudo bem, pessoas trocam nomes, signos e telefones com outras pessoas em quinze dias, mas o que eu quero dizer é que ninguém me esquece nesse meio tempo. Eu acho. Ela inventou esse camarada para me despistar. Porém, sou tão boboca que começo a acreditar nela, do fundo do meu coração.

– Que porcaria.
– Ah qual é, Santiago? Você realmente achava que isto estava dando certo?

Ignoro a pergunta. Não interessa. O que interessa é:

– Quem é?
– Não importa – ela se retrai na cadeira.

Ah importa, e como importa. O mínimo que todos os que já foram enganados deveriam ganhar como ressarcimento é uma descrição precisa e detalhada sobre por quem foram trocados. Dá uma referência para o quão próximo do penhasco você está sendo empurrado. E, sabe, muitas vezes tive notícias de pessoas que se sentiram ofendidas ao serem passadas pra trás por alguém, em tese, pior. Eu não, ficaria muito aliviado em saber que Juliete está vendo, sei lá, um entregador de pizzas. Nada contra, eu mesmo adoro pizzas e aciono a tele-entrega o tempo todo, a não ser que, claramente, os entregadores de pizza não estão entre os dez estereótipos mais disputados do mundo. Eu odiaria mesmo é saber que ela anda se esfregando num tipão alto, protuberante, com um emprego-dos-sonhos e um cabelo louro e macio, que veste terno escuro em tempo integral. Porque eu sei que jamais vou me erguer a este patamar como indivíduo. Já sobre os entregadores de pizza, bem, há grandes chances de um dia eu me juntar à corporação deles, se eu perder meu pavor de motocicletas. É por isso que eu quero saber quem é o palhaço. Saber que fui trocado por alguém pior me fará sentir infinitamente melhor, sério mesmo. Até posso usar como desculpa que minha ex-namorada está desmiolada ou não soube compreender o homem gentil, austero e nada mesquinho que eu sou, não é verdade?

– Sabe, Santi... – ela retoma depois de uma breve crise polissilábica e irritadiça da minha parte: – As coisas não andam nada bem entre nós.
– Só se for pra você – murmuro como uma criança. – Eu estava achando tudo perfeito.
– É mesmo?
– No duro.
– Bem, eu acho que você não está enxergando direito – diz Juliete, antes de deixar um hiato reflexivo no ar. – Engraçado, porque a primeira vez que olhei no seu rosto, vi uma pessoa boa. Nunca me engano com essas coisas. Mas você passou todo esse tempo que estivemos juntos tentando provar que estou errada.
– Bem, eu...
– Me deixa concluir – Juliete me interrompe. – Talvez você seja um cara legal, ainda não sei. Só que dá pra ver que você anda meio perdido, sem saber o que você quer, sabe, de mim, da sua vida, de você mesmo.
– Quem disse que eu não sei o que eu quero? – minha vez de sustar o diálogo. – Mas é claro que eu sei o que eu quero!
– E o que é? Me diga.

Paro por um instante. No entanto, logo desisto e vejo como sou incapaz de pensar em algo que eu queira muito, com devoção. Então escolho o caminho mais fácil, e vou de “sei lá”.

– Viu só?
– Eu quero você, Juliete.
– Ah, é? E por que todos esses dias sem me ligar? Por que você me deixou terminar o namoro numa boa quando vi aquela cena horrível no sofá daquela festa cretina? Por que eu tenho tantos por-quês na minha cabeça? Por que eu me deixei seduzir pela primeira pessoa que pareceu estar bem aí pra mim?
– Numsei – balbucio.
– Bom, se você não sabe então tanto faz. Eu acho que você estava sem medo de me perder. E se você não tem medo de perder é porque não tem importância.
– Só sei que estou sentindo o medo agora.
– É tarde para isso, Santiago. Acorda, cara. O sonho acabou.

Me recuso a aceitar uma decisão unilateral dessas. Mas não há jeito, ao que parece. Ela pega a conta e se põe de pé, claramente de saída. Ela acha que a conversa chegou ao fim. Isso é o que ela pensa. Não vou deixá-la sair assim.

– Baby Julie, eu acho que amo você.

Sério, Santiago? Você disse mesmo isso para todo o lugar ouvir? Sim, eu disse, e é a primeira vez que digo que amo alguém e faço questão de que a coisa soe totalmente falsa e desesperada. Foi mais constrangedor do que perder a virgindade. Que jogo mais sujo. Juliete fica imóvel, plantada no meio do bar, com uma mão na cintura e rindo ironicamente e sem humor.

– Você é inacreditável – fala e aí sai porta afora.

Vou atrás. Ela dá passos largos na calçada, olhando avante, vetando meus chamados.

– Espere aí, Juliete. Esse papo ainda não terminou!
– Terminou para mim! – ela berra, enquanto caminha muito mais rápido, quase trotando.
– Por que as coisas tem de ser sempre como você quer, hein?

Estou gritando no meio da rua. Patético.

– Juliete! Juliete! Volta aqui!

Ela sobe no seu Renault e dá a partida. Paralelamente, na calçada, eu começo a perfurar os passantes, atropelando latas de lixo, orelhões e placas anunciando refeições, correndo, correndo, correndo e bravejando atrás da garota, como um cão raivoso se achando o dono da rua. Eu a persigo o mais veloz que sou capaz, gritando e acenando atrás do automóvel, como um maníaco do parque. Ela atravessa um semáforo no vermelho, quebra uma esquina e eu a parco de vista.

Dou um tempo ali, aos bufos e pigarros, arfando intensamente com as mãos nos joelhos, sentindo gosto de sangue a cada trocar de ar nos pulmões, realmente mal e sem fôlego, como um maratonista derrotado que em algum momento errou o trajeto. Que droga. Se eu quiser recuperar o amor de Juliete, com urgência terei de parar com o cigarro.

Gabito Nunes em “Juliete Nunca Mais”: http://www.julietenuncamais.com.br/2013/05/048.html#ixzz2TbwqNLXa

07 abril, 2013

O que você não sabe.


Quando na oitava série, num período confuso que é a adolescência, eu estudava num colégio de freiras e tinha um melhor-amigo chamado Felipe. Mas essa não é a história toda.
Felipe era alto, louro, de olhos azuis e corpo atlético. Levava muitas menininhas para embaixo da escada que dava para a sala audiovisual. Jogava bem futebol, xadrez, videogame, qualquer coisa. Sabe aquelas pessoas que são boas em tudo? E eu era apenas uma versão virgem e distorcida do que mais ou menos sou hoje: sombrio, feio, melancólico, esquisito e me recordo de, na época, querer ser como Rimbaud. Eu ia com meu caderninho de anotações poéticas a todos os lugares da escola, do banheiro ao ginásio de educação física. Não demorou muito para todas as turmas da tarde e algumas da manhã espalharem a conclusão de eu era, como dizem, bicha.
Difícil saber por que Felipe e eu, mesmo tão diferentes, éramos amigos do peito. Um belo e um feio, um pop e um esquisitão. Suponho a razão seja porque ambos estávamos repetindo a série e o resto da turma parecia todos uns pirralhos idiotas; mas é difícil entender as afinidades entre duas pessoas, onde exatamente elas se engancham.
Um dia, sem mais nem menos, Felipe chegou pra mim e disse que era melhor nos afastarmos, de turma, de classe, de turno. A minha imagem estava pegando nele, e isso era uma coisa ruim. Todos estavam achando que ele não gostava de meninas, e que ele só pegava várias para calar a boca da galera. Até tentei contrapôr, que não importava o que os outros pensassem, mas não fui muito longe. Eu sabia por quem eu tinha ereções e isso me bastava. Era mais fácil arrumar uns amigos novos do que mudar a cabeça homofóbica de alguém.
Eu poderia dizer que sei como é ser gay, mas seria uma heresia hedionda. Eu não sei como eles se sentem, não tenho ideia. O descobrimento, a negação, a transformação, a aceitação, a admissão? Nem imagino. Sei como é achar um homem atraente e bonito (Todos os homens sabem como é, embora não confessem. David Beckham, hein?), mas não faço ideia de como é ter atração física pelo mesmo sexo. Nunca tive contato com a dor e aflição de um menino que não se sente assim tão viril quanto o pai, a escola, a turma da natação, os garotos da rua, tios, etc, esperam que ele seja. Eu não sei como é, você não sabe como é. Só eles sabem. Não deve ser fácil.
Mas mesmo assim a gente cochicha, aponta, ri, debate, milita, rejeita, fala, debocha, argumenta, conta piadas a respeito, opina sobre o casamento gay, a lei anti-homofobia, adia o beijo homossexual na novela. Por que todos os dias conversamos sobre coisas que não temos noção de como é? Porque precisamos da ilusão de que somos superiores, seja por “saber como é” e falsamente compreender, ou seja por negação, rejeição, preconceito.
A verdade é que sofremos um pavor irracional em relação a tudo que não nos diz respeito, não aceitamos que as coisas possam existir e funcionar sem nosso aval e entendimento, o que nos leva a outra ilusão necessária: a de que estamos no controle, de que o mundo pertence a nós e logo somos o centro dele, e tudo que sucede em volta é mera paisagem e figuração.
Existem as coisas que você sabe. Que não representam uma ínfima fração de todo o resto que você não sabe. Deus nos abandonou com as dúvidas e fugiu com todas as verdades absolutas.


Gabito Nunes.

16 janeiro, 2013

Ai Gabito!


"Me chamam de exigente, mas não sou. 
Só quero alguém que tenha a mínima capacidade de fazer o óbvio, no caso gostar de mim. 
Mas de mim, não do que pode obter de mim. 
Meu anúncio só diz que sou engraçado, romântico, gentil, tarado, fiel, inteligente, carente, descrente, desesperançado, desesperado.
Essas coisas que ficam na última gôndola do mercado de amores."


Gabito Nunes

18 novembro, 2012

Atos falhos.




Acho que te devo um pedido de desculpas. É que nem eu mesmo gosto muito de mim, e fico meio assustado quando alguém me diz que consegue isso. É que você parecia minha amiga, só minha amiga. Você fala como uma amiga. Me cumprimenta como amiga. Me telefona e me convida para cinemas como uma amiga. Seu riso é de amiga. O seu abraço é de amiga. Mas eu devia ter desconfiado, seus cabelos sempre tiveram cheiro de namorada. Existe algo errado numa amizade quando o resto do mundo parece chato e nós os únicos legais.

Mas, conhecer você e ser seu parceiro de pipoca foi bom. Bom como ler uma letra bonita sem poder escutar a incrível música por trás dela. Como planejar um final de semana na praia e ter dois pneus furados no meio da estrada. Descobrir uma ruazinha bonita no seu bairro e ser estuprado nela. Você é a chuva no meu piquenique. Você é o show do Weezer que não consigo ver porque sou muito baixo. Você é a deliciosa torta de chocolate e limão que para comer eu preciso estar presente no aniversário de 70 anos da minha tia Rosalina. Sou Jennifer Aniston tentando converter um gay em "A Razão do Meu Afeto". Você é minha pipa enrolada nos fios de alta-tensão. Você é meu peixe novo que morreu na primeira semana. Você é o irmão gêmeo malvado que eu descobri a existência. Você é o game "The Beatles: Rock Band" para XBox que custa quase dois mil dinheiros. Você é como uma baleia em extinção querendo viver na minha piscina de mil litros. É como se eu finalmente aprendesse a voar e você fosse a Kriptonita. Eu sou o país independente que você não deixa em paz. Você é o braço que eu quebrei tentando catar as goiabas do vô Agenor. Você é o Barcelona vs Real Madrid que não passa na minha tevê. Sou Midas louco pra te beijar a boca sabendo que tudo que ponho a mão vira ouro. É como abrir minha lata de refrigerante e descobrir um camondongo morto boiando dentro. É como criar coragem pra subir no palco cantar "Love Will Tear Us Apart" e lá de cima enxergar você no guichê, pagando pra ir embora.

Sei que andei falando coisas sem pensar. Me esforcei pra deixar quieto, ficar de boca calada, não fazer merda. Quase deu certo. Você sabe, sou meio blá. Olha, sei que andei falhando todas essas vezes, nos últimos meses. Em minha defesa, não era bem eu. Só estava tentando ser uma outra coisa, sei lá, algo que pudesse merecer você. Como eu poderia adivinhar que alguém como você gos
taria de mim, assim desse jeito atrapalhado que eu sou? Vamos ser sinceros, pra conquistar você tinha de ser de rali. Contando só a arrancada eu não teria a menor chance.

Um dia, eu sei, você vai entender os meus motivos. E talvez eu os entenda também. Você estava meio etílica, mas sei que foi honesta, pelo menos na hora em que disse aqueles troços. Não sei o nome disso que estamos sentindo um pelo outro e também não me importa. Pode ser o ápice ou o precipício, e tudo bem. E também não sei se teremos habilidade para cultivar isso por três semanas ou por três décadas inteiras. Só sei que agora estou interessado em saber como será o próximo passo.

Gabito Nunes

17 setembro, 2012

Pra já


Eu andava sim triste, depressivo, sem saída, sem pau, com os pulsos algemados nos braços da cadeira, chantageado pela pobreza neuroquímica a assistir televisão eternamente no escuro, nessa sala de mal-estar, nessa casa sem jardim. E quando você parava entre mim e o azul da tela, podia enxergar suas mãos na cintura, seu dedo em riste, seus lábios se abrindo e fechando fervorosos, seus dentes brancos se debatendo. Mas não conseguia ouvir seus gritos de socorro.

Eu queria dizer coisas. Sorri um pouco pra mim? Me ajude a descobrir onde dói. Se ajoelhe na minha frente e deite no meu colo, vê se meu peito ainda bate, meça minha pressão, traga um balde pra eu vomitar, tem vick-vaporub? Eu juro, tentei mexer em alguma mecha dos seus cabelos bem cuidados. Não era possível mover o queixo e dizer seu nome seguido de promessas boas, mas estava pensando em você, em como não voltar a te fazer chorar pelos cantos. Eu tentava, no duro. Em algum nível, como você dizia, escolhi essa condição, embora sem saber como reprogramar meu cérebro.

Todos nós temos períodos trôpegos de dormência, de confusão, de enlouquecimento. E a gente costuma vangloriar, invejar os loucos, queremos refletir no espelho como tal, em busca de mera absolvição. Um louco é só um covarde que não suportou sentir a dor. Admito, talvez o processo de enlouquecer seja excitante, chacoalhando sua mente sonolenta com nervura, entorpecendo, fazendo notar ainda ser possível jogar-se com muito ímpeto ao pote. Mas, uma vez louco, sempre. E para o louco, toda loucura é normal.

E eu quero mais, quero me surpreender, surpreender você. Quero voltar pra casa e plantar algum jasmim com seu cheiro. Só existe amor onde tem perfume e movimento - e seus pirulitos de framboesa distribuídos em pequenas bombonieres pela casa, e a cama que não tem tempo de se recompor, e os milkshakes de morango com cobertura de gelinhos, e os recados curtos em papel amarelo e autoadesivo. Assalto, só do sentimento residente, me mandando calar a boca e levantar as mãos para o céu. Loucuras, nunca mais. Eu voltei.

De todas as coisas que você me deu, a melhor delas certamente foi a chance de escolher, escolher você, escolher ficar contigo e atravessar com algum alívio os dias que eu quero simplesmente morrer pra não ser intimado a depor sobre o meu sumiço. Você me ensinou muitas coisas, a melhor delas, me ensinou que o amor verdadeiro sempre espera um pouco mais pelos abraços atrasados.

Foi só um susto. Um choque que você decidiu me dar pra afogar minha letargia. Pra me dar conta que livre de afeto não é viver, apenas matar o tempo. Eu me perguntava por que a gente estava perto demais e depois me questionei onde tudo se perdeu. Eu só queria perder a vontade de ligar todos os pontos de interrogação. Eu só quero você hoje. Não amanhã, não ontem, hoje. Agora. Não pra sempre - pra já.


Gabito

Por que seus olhos têm se fechado?



"Contudo, nem todos fecham os olhos, se despertos. 
E dos que fecham, uns o fecham de modo conotativo, outros de jeito conotativo. 
Conotativo: você fecha os olhos para a emoção. 
Denotativo: você fecha os olhos de emoção. 
Desconformidades postas, pergunto: 
por que seus olhos têm se fechado?"


Gabito

26 agosto, 2012

Mais ou menos é a pior coisa que existe.



"Me diga que está triste, eu consolo. 
Me diga que nunca foi tão feliz, eu concordo. 
Me ame ou me odeie. 

Me mande pra puta-que-o-pariu ou me convide pra ir com você. 

Exploda na minha cara ou se derreta na minha mão. 

Deixa eu te ver morrendo de tanto rir ou com vergonha das olheiras de tanto chorar. 
Só não me esconda o rosto. 
Me abrace, me esmurre, me lamba ou me empurre. 

Só não me balance os ombros.

Não me perturba assistir tua dor nem acompanhar teu gás.

Te ver mais ou menos realmente me incomoda.
Mais ou menos não rende papo, não faz inverno nem verão,
não exige uma longa explicação.
É melhor estar alegre ou estar triste, mais ou menos é a pior coisa que existe."

Gabito Nunes

22 agosto, 2012

Bicho-do-mato.


Foi alguma coisa que eu fiz? Que eu não fiz? Que você nem queria mesmo que eu fizesse, mas seria legal demonstrar interesse em fazer? “Foi uma coisa que você disse.” 

Já sei, alguma das minhas piadas estúpidas. Olha, não vou me desculpar, eu sou assim, se eu tiver que desdizer qualquer bobagem, não terei mais tempo para outra coisa. Não leva sério esse papinho freudiano de que as brincadeiras têm um fundo de verdade.


“Você disse que estava gostando de mim. Foi isso.”

Ah. Bom, isso eu falei sério. Há um penhasco de verdade aí. Isso chateou você?

“Digamos que foi uma frase mal colocada. Despropositada e fora de lugar.”

Bom, vou ter que me desculpar por dizer o que eu estou sentindo?

“Eu sei onde você quer chegar. Olha, vou ser honesta contigo, algo me diz que você merece. Eu não sou interessante. Você entende? Sei como é, só porque eu sou bonitinha, eloquente e meio exótica, com seus olhos você enxerga uma garota inteligente, divertida, culta, impressionante, talvez boa de cama. Eu não sou nenhuma dessas coisas. Eu não tenho graça nenhuma.”

Bom, isso quem decide sou eu, não é mesmo?

“Falo sério. Talvez eu até mereça essa sua atenção momentânea, mas a longo prazo sou uma garota que não funciona direito. É como se eu fosse uma vitrola antiga, com a agulha defeituosa. Se você parar para prestar mais atenção em mim, vai se dar conta que eu fico roçando no vinil e atrapalhando a música, provocando aqueles ruídos que dão agonia nos dentes. E sabe o que é pior? Eu não tenho conserto, não há peças de reposição no mercado, sou uma causa perdida. Por que você não abraça uma árvore? Vai dar na mesma.”

Você só anda com problemas de autoestima. Eu acho você bonita e atraente. Você se acha pouco, e por mim tudo bem, eu não preciso de muita coisa para ficar feliz.

“Não. Gostar de mim mesma não é autoestima, é humor negro. Sou realista, não passo de uma boboca vazia e sem glamour. Meu corpo faz umas promessas que meu cérebro não pode cumprir. Eu sou burra, gosto de novela e comédias românticas, não leio Sartre e esses troços.”

Admiro você por não ler livros de filosofia. Quem entende aquele papo? Eu acho que as pessoas dizem que leem Sartre só para parecerem letradas e cerebrais. Esse tipo de gente não me encanta. E você não é burra, é apenas... pop. Como os Beatles.

“Não é só isso. Aí do outro lado você deve estar me imaginando de calcinha e camisetão da Janis Joplin até as coxas, fazendo as unhas do meu pé, no sofá, cheia de esmaltes coloridos espalhados em volta, com aquele separador de dedinhos e tudo. Você deve achar que eu fico bebendo Carménère e escutando Ella Fitzgerald pela casa, na escuridão. Parte da sua admiração são essas visões sexies que você tem. Quer saber, eu estava agora mesmo desentupindo o ralo do meu banheiro, e logo antes liguei para minha mãe perguntando daquela receita de família que tira o chulé. Sabe qual foi meu jantar? Pão, café-com-leite e banana. E agora estou sem as lentes de contato, usando uns óculos que tapam metade da minha cara. E aí, o que você acha, ficou com tesão?”

Não muito. Você só está tentando me afastar. Não está conseguindo. Pelo contrário. É isso que eu gosto em você, seu realismo, sua espontaneidade, sua falta de modos. É isso que eu acho bonito numa pessoa, você vive sua vida, aceita suas limitações, não dá muita bola para o que os outros vão achar. Às vezes eu acho as pessoas tão igualmente diferentes, sempre pendurando idiossincrasias no pescoço e fazendo um esforço tremendo para parecer legal. Você é você. Estou certo que existem almas formidáveis por toda a cidade, mas se eu fui gostar logo de ti, isso quer dizer alguma coisa.

“Eu fico aqui pensando, que problema mental será que você tem pra gostar tanto assim de mim. Inábil, patética, dentes tortos, queixuda, e de cabelos oleosos. O próprio bicho-do-mato. Na escola, eu tinha uns 14, fizemos uma viagem de final de ano para o Chile, e eu gostava de um menino. Perguntei se ele ficaria comigo e ele disse que sim, claro, se o nosso avião fizesse um pouso forçado na Cordilheira dos Andes ou coisa assim. Sempre que um cara diz que gosta de mim, acho que ele está zoando comigo. Sério, a última pessoa que ficou arrebatada por mim foi o dono do circo Vostok, ele disse que tinha uma atração para mim, se fosse embora da cidade com o pessoal. Eu não tenho sal nem sex appeal, eu não sou legal, às vezes coloco um vestido e me revisto umas três vezes por que a roupa parece sempre do avesso. Um dia eu saí na rua depois do banho, fiz uma careta contra o vento e fiquei assim.”

(Risos) Abobada. Tudo bem, Você não é nenhuma Zooey Deschanel, mas você não é feia, só anda se sentindo desse jeito porque não está sendo amada por alguém, no momento. Mas isso pode mudar. Sabe, você não é do tipo que ficaria nem cinco minutos no telefone com qualquer pessoa sem o mínimo de interesse. Se está deixando rolar essa conversa, é porque gosta de mim, ou então já teria desligado e me mandado às favas. Você só está complicando as coisas porque está preocupada que isso possa ser uma coisa importante. Você não quer se comprometer.

“É, eu não quero me comprometer. Eu agradeço sua atenção, mas estou dando todas as chances pra você desistir. Aceite minha oferta e pense bem, caia fora, garoto. Ou eu não me responsabilizo.”

Não existe motivo para pânico. Você age como se eu quisesse descarregar um caminhão de mudança na sua sala de estar. Por enquanto eu só quero te chamar pra sair.


Gabito Nunes.

05 agosto, 2012

Tudo pode dar certo



"(...) Se você adora uma certeza, fique longe desse tipo movediço de campo de sedução atulhado de descargas elétricas de ilusão e difusão semântica; onde um olhar, um sorriso, um gesto, uma palavra podem representar mil coisas além de apenas um olhar, um sorriso, um gesto, uma palavra. Você pode também acabar confundindo-se, escancarando intenções estúpidas e incomodando vizinhanças.

Um conselho para mim mesmo, espero que eu aprenda de uma vez: quando uma garota se insinua, não é uma oferta, uma promessa; mas uma suposição, um convite. É como uma dança, isso, um convite para uma dança. É a garota dando uma brecha, deixando você chegar perto e até tocá-la. É ela deixando-se guiar numa breve canção de apresentação. Nada a impede de trocar de par na valsa a seguir. Se ela pisou no seu pé foi porque, na boa, considerou que você não soube conduzi-la ao próximo passo.

Só estou tentando mostrar a você que nesse preâmbulo de história, onde tudo deu errado e acabei me saindo muito bem como o vilão principal, existiu um momento, um triz, talvez tenha sido apenas um dia ou uma semana, não sei, em que a coisa realmente pareceu que ia dar tudo certo."



Gabito Nunes


Mais em: http://www.gabitonunes.com.br/2012/02/tudo-pode-dar-certo.html#.UB3dOfZlTAA

30 julho, 2012

Como soa dividir comigo...



Como soa dividir comigo essa existência idiotamente ridícula, morna, real, estúpida, bagaceira e imbecil? Vamos fazer diferente, como ninguém mais sabe fazer, só nós? Diz que vamos, vai.
Não? É tudo que preciso pra começar a te conquistar. Diz que não com os olhos cheios de esperança. Com duzentos "nãos" eu construo um castelo, uma roda gigante, uma cabaninha de lençol na sala, um altar, um amor, um sim bem grande. 
Com um sim entre você e eu, te roubo inteiro e metade da felicidade do mundo.

Isso, faz assim. Se faz de labirinto quando eu me oferecer em linha reta. Diz que metade de mim, a parte amiga, tá bom, só pra me empurrar inteira coração adentro, goela abaixo, com toda a calma do mundo. Isso, faz assim. Dá voltas e voltas e voltas na chave da tua emoção só pra eu me exibir que posso te desarmar, desarrumar sua vida e seus cabelos. Embora eu não te ame ainda, mesmo o amor não existindo, diga não e me encoraje a pôr tudo à prova.

Finge não me querer, disfarce o brilho no olhar, esconda o sorriso atrás dos cabelos, ganhe torcicolo de tanto cuidar o outro lado, fique o tempo todo pensando no jeito infalível de ganhar o Oscar de melhor "tô nem aí". Me ache chata se eu te procurar, me ache a mulher da sua vida se eu sumir, me veja feia do teu lado, me veja linda do lado dos outros. Diga trocentas vezes pro espelho que sou a garota mais idiota, mais engraçada, mais fajuta, mais encantadora que você fingiu não gostar.
Perfeito assim. Fosse sem esses enigmas, sem esses rodeios, sem esses movimentos, sem esses contrastes eu o rejeitaria como todas os outros. 

Aí você se dá conta que para voar é preciso tirar o peso dos ombros, se desanda, e diz pra mim, no ouvido, com um fio de voz e outro de esperança de que seja tudo real, que isso é o maior erro do ano, que não imaginava existir tanta culpa no céu, que as pessoas ficaram mais bacanas depois que encasquetei em te querer. Tudo sorrindo mais do que seu rosto aguenta.

Depois, com pequenos beijinhos e mordiscadas virando e desvirando seu corpo, virando e revirando seus olhos, convenço que os maiores amores se acertam nos erros, quando a loucura e a entrega vencem a resistência e o medo de alguma forma. 

-Gabito Nunes

25 abril, 2012

Amor não vai. Amor é o que fica...




“Amor não vai. Amor é o que fica. Amor é resto. Amor é o que sobra do que foi supracitado. Amor não é  onda, é o mar. É o companheiro que não abandona depois que todas as fervorosas sensações se foram. Paixão, ódio, saudade, sexo, casamento, desejo são como trens. Amor é estação.”


Gabito Nunes